Histórias de Quarentena

Produção de mídia popular nas favelas
do Rio de Janeiro

Erik Martins

Erik Martins - 'Rocinha por Rocinha' Tours

Oi, pessoal! Meu nome é Erik Martins, tenho 30 anos e trabalho como guia de turismo. Sou professor de inglês e português e também produtor cultural. Eu sempre trabalhei com turismo. O meu primeiro tour na Rocinha foi aos 17 anos, quando estava estudando inglês na Escola de Música da Rocinha. Minha professora conhecia muitos estrangeiros e me pediu para fazer um tour com alguns de seus amigos da Alemanha. Fiz esse tour em inglês e foi assim que comecei! Foi um tour informativo e foi a primeira vez que mostrei a minha casa na Rocinha.

Histórias de distanciamento social do Erik

Estávamos nos recuperando da crise financeira de 2018. Eu costumava receber de 40 a 50 turistas por mês, mas no início deste ano eu tive uma média de 10 turistas por mês e, depois da pandemia, meus tours ficaram totalmente parados. Tivemos que parar porque os moradores e turistas não estavam se sentindo confortáveis para fazer qualquer tipo de atividade. Estava trabalhando em um hotel ao mesmo tempo em que trabalhava como professor de inglês autônomo e guia de turismo. Quando a pandemia chegou, fui demitido do hotel e estou lutando para receber o meu seguro-desemprego. Foi um problema grave, pois a partir de meados de março não havia muitos empregos disponíveis. Não tinha alunos e não pude fazer nenhum tour. Fiquei doente, mas não tinha dinheiro para comprar remédios. Foi uma época muito difícil!

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‘Rocinha by Rocinha’ Tours

Queria trabalhar como ator, mas era só um sonho. Fiz algumas aulas de teatro em um projeto muito famoso no Vidigal, chamado “Nós do Morro”. Mas sabia que seria muito difícil ganhar dinheiro trabalhando como ator no Brasil. Então decidi estudar turismo. Fiz um curso profissionalizante de Turismo e Hotelaria, pois quando fiz meu primeiro tour, me apaixonei pela experiência. Não sabia por onde começar e não pensava em trabalhar com turismo nas favelas. Embora eu tenha nascido e crescido na favela da Rocinha, para mim era só o lugar em que nasci e eu não esperava ou imaginava trabalhar com turismo aqui. Queria ser guia de turismo, queria mostrar os pontos mais famosos do Rio, como o Pão de Açúcar, o Cristo Redentor, as praias da Zona Sul, mas depois do meu primeiro tour pela favela, tudo mudou na minha cabeça. Então decidi não só estudar e me dedicar ao inglês e ao turismo, mas principalmente guiar os turistas pelo universo das favelas, porque queria fazer um trabalho mais significativo e próximo da minha realidade.

 

Sendo assim, decidi criar a minha própria empresa. O nome da minha empresa é 'Rocinha by Rocinha' e apesar de já ter trabalhado com outros guias, hoje trabalho sozinho. Como somos daqui, nossa ideia é proporcionar aos nossos visitantes uma experiência genuína na favela com a população local, mas também com qualidade e fornecendo informações sobre as origens dos tours, nossas trajetórias, nossas lutas, nossa cultura e a dinâmica da favela da Rocinha. Eu já trabalhei como guia de turismo em outras agências de turismo, mas elas não são geridas por pessoas das favelas do Rio e não gostei muito do jeito que eles trabalhavam.

Eu criei o 'Rocinha by Rocinha' em 2013, mas comecei a pensar no conceito e me preparar para o projeto antes disso. Tenho ótimas referências das minhas experiências anteriores de trabalho como agente de saúde em favelas e como pesquisador das Nações Unidas, quando estudei como a Rocinha se organizava enquanto comunidade. Aprendi mais sobre as questões econômicas e sociais que enfrentamos, sobre a nossa história e, claro, sobre a minha experiência local como morador. E é isso que tento inserir no meu trabalho como guia de turismo aqui.

 

Comecei a trabalhar com outros guias da Rocinha. Fizemos muitos tours, fizemos contato com muitas pessoas do mundo todo. Muitos de nossos clientes eram da Europa, especialmente do norte europeu - como Dinamarca ou Suíça - além de recebermos muitos ingleses. No ano passado, recebemos alguns americanos e pessoas da América Latina.

Histórias de distanciamento social do Erik 

No início da pandemia, a comunidade estava muito apreensiva. As pessoas estavam com muito medo do vírus e muitas pessoas foram despedidas. O nível de desemprego na comunidade aumentou muito e as pessoas começaram a ter dificuldade para pagar as contas. Agora, as lojas locais estão começando a reabrir e vemos pessoas usando máscaras. Eu digo que o maior impacto da pandemia na Rocinha, na comunidade, foi o financeiro. Há muita gente que trabalha só na informalidade, não tem acesso à previdência ou seguro-desemprego. Então, para eles, foi um problema ainda maior, principalmente porque tiveram muita dificuldade para ter acesso ao auxílio do governo para a população de baixa renda. Muitos receberam 1 ou 2 parcelas. Porém, não receberam mais. Alguns estão em análise até hoje. E mesmo os que receberam correrão o risco de ter esse valor reduzido metade. Caso haja uma segunda onda (se bem que ainda nem saímos da primeira), eu realmente não sei o que as pessoas vão fazer se fecharem tudo novamente e vierem a adoecer sem ter dinheiro. Felizmente, dentro da comunidade, alguns projetos sociais distribuíram cestas básicas e produtos de limpeza. Mas, como eu disse, as pessoas não tinham dinheiro para pagar o aluguel, para pagar o gás, para pagar outras contas. Então, as pessoas da comunidade estão enfrentando muitas dificuldades financeiras.

Eu, no momento, estou trabalhando em uma pesquisa de campo justamente para avaliar o grau de impacto da COVID-19 aqui dentro da Rocinha. É um job de uma semana apenas. Porém, é um dinheiro a mais que entra pra ajudar. Eu morava de aluguel dividindo a casa com amigos. Mas, devido à falta de recursos, tive que voltar pra casa da minha mãe, onde não pago aluguel. Graças a Deus que ao menos eu tenho isso e pude contar com ela nesse sentido.

Olha, eu realmente não acredito em vitimismo e assistencialismo. Não vejo benefício nisso. Mas, de verdade, as pessoas e a realidade de vida aqui de dentro são BEM diferentes daquilo que as pessoas lá de fora, com todos os seus preconceitos e esteriótipos, pensam! Sobretudo os brasileiros. Especialmente se estes não moram em favelas ou em periferias. Desemprego é uma realidade, subemprego é uma realidade. Péssima remuneração, custo alto de vida na cidade, racismo, falta de políticas públicas que favoreçam o desenvolvimento destas localidades. Enfim. De tudo, o mais frustrante pra mim é ver jovens como eu fui um dia, sem ter alguém que investisse em mim. Nunca saí do Brasil. Mas leio bastante. E graças ao meu trabalho com turismo, conheço pessoas do mundo todo! Lá fora existe muito mais investimento em mentes pensantes e pessoas de grande potencial. Meu sonho hoje é que alguém me veja e invista em uma das minhas ideias. Não sou mais jovem. Mas com algum investimento e dedicação da minha parte e de outras lideranças da Rocinha, poderíamos fazer pelos jovens de nossa comunidade aquilo que não fizeram por mim.

Caso queira saber mais ou agendar um tour 'Rocinha by Rocinha', entre em contato comigo:

+55 21 96468-4395

+55 21 97419-8691

@erikmartins.89 e #rocinhabyrocinha