Histórias de Quarentena

Produção de mídia popular nas favelas
do Rio de Janeiro

Antônio Carlos Firmino

Antônio Carlos Firmino - Museu Sankofa: Memória e História da Rocinha

Olá! Meu nome é Antônio Carlos Firmino e sou morador da favela da Rocinha. Tenho 53 anos. Em 2008, desenvolvi o Museu Sankofa: Memórias e Histórias da Rocinha. Os turistas queriam conhecer um museu, então criamos um museu de percurso pelas ruas da Rocinha. Tínhamos parceria com o ASPA, um instituto espanhol que envia visitantes ao Brasil que desejam conhecer a Rocinha . Minhas narrativas se baseiam no que é a favela da Rocinha e como essa favela se formou, de onde veio nossa cultura. Usei um livro que foi escrito em 1970 e lançado em 1983 pelas professoras Livia Sengala e Tânia Silva em colaboração com Antônio Oliveira, o Presidente da Associação “Varal de Lembranças”. Esse livro trouxe lembranças de antigos membros da comunidade e foi por onde baseei minha narrativa,. Pude coletar memórias de moradores dos anos 60 e 70 sobre como essa favela surgiu.

Histórias de Distanciamento Social do Antônio

Nas primeiras semanas da pandemia, as pessoas na Favela da Rocinha ficaram com muito medo porque não sabíamos o que era o tal coronavírus. Não sabíamos como nos comportar e como todos reagiriam no país. Não tínhamos nenhuma diretriz ou protocolos. Literalmente voos às cegas, como dizem. Porém, mesmo para quem está em um voo às cegas existe algum tipo de protocolo. Mas o que deixou o povo brasileiro mais confuso foram as divergentes declarações do governo municipal, estadual e federal. Além disso, havia as declarações do ministro da saúde, que minimamente orientavam, fazendo declarações todos os dias. Mas isto tudo foi contra os desejos do governo federal, que forçou a sua demissão. Frente a isto, depois tivemos mais dois ministros: um médico, que também ficou por um mês, e o outro um general militar, não médico, e que seguia as ordens do presidente. Sendo assim, foi empossado ministro da saúde.

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Antônio Carlos Firmino - Museu Sankofa: Memória e História da Rocinha

Em 2004, participamos do programa do governo 'Ponto de Cultura' e ministramos cursos de formação pedagógica para as educadoras da creche da Rocinha sobre a memória e a história. O 'Ponto de Cultura' é uma rede ativa que reuniu 200 iniciativas e onde discutimos políticas públicas, arrecadamos recursos para nossas iniciativas e conscientizamos sobre essas questões para pressionar nossos governos a agirem. Também sou consultor na região metropolitana da Baixada Fluminense no Rio de Janeiro e estou fazendo campanha contra a violência juvenil dessa região. Mostro como esse genocídio é intrinsecamente histórico e um processo que prejudica nossos jovens. Também dou aulas online sobre a história da Rocinha, seus aspectos socioculturais e sobre o que está acontecendo agora durante a pandemia na favela.

 

Em nosso museu, apresentamos a memória e a história da favela da Rocinha, que já foi a maior favela da América Latina e agora é a maior favela do nosso estado. Usamos uma abordagem crítica para falar sobre os governos e como eles negligenciaram a população das favelas. Também falamos sobre como nossos governos negaram nossos direitos básicos à moradia e à cidadania. Na imprensa, as favelas são retratadas como espaços de violência. Mas nós mostramos outro ponto de vista da nossa favela, que fala sobre o empoderamento e a resiliência da comunidade.

Em nosso passeio, falamos sobre o rico contexto histórico da Rocinha e também sobre parte do Leblon, que é um bairro nobre do Rio de Janeiro. Apesar de falarmos também sobre a família real neste local, sempre discutimos sobre o 'Quilombo das Camélias', que era um lugar onde escravos ficavam depois de fugirem de seus senhores e onde se escondiam juntos para resistirem à escravidão. Esse quilombo foi organizado no Leblon, então o nosso tour conta a história do Rio de Janeiro do ponto de vista desse povo. Então, em nossos tours, falamos sobre quem construiu essa cidade e o Brasil. A história 'oficial' brasileira nos ignora. Portanto, ao contextualizar nossos tours, reconhecemos que os povos nativos e os negros escravizados fazem parte de nossa história e memória. Conscientizamos sobre o mito da democracia racial no Brasil e discutimos sobre a luta dos povos nativos e dos negros escravizados contra os brancos.

Histórias de Distanciamento Social do Antônio‘s Covid -19 Story 

Ainda nos primeiros meses do início do isolamento social em função da COVID-19, estava indo às compras na Rocinha. Vi algumas lojas abertas e outras fechadas. Algumas pessoas falaram que a prefeitura estava realizando inspeções que levou ao fechamento dos estabelecimentos, mantendo abertos só os essenciais. A prefeitura do Rio, depois de muitas idas e vindas e de ter ou não protocolos, pois ela seguia a lógica do governo federal que não deveria de ter isolamento social, determinou que as responsabilidades seriam dos Estados e Prefeituras, a partir de cobranças de especialistas da área médica e outros órgãos. Mas agiram a partir da determinação do Supremo Tribunal Federal. Só então que a prefeitura se movimentou para criar um protocolo mínimo que já era recomendado pelas autoridades competentes, como a obrigatoriedade do uso das máscaras e higienização das mãos com água e sabão.

Então vieram mais problemas. Os moradores das favelas sempre tiveram problemas com abastecimento de água. Raros foram os momentos de abastecimento regular nas favelas. Mas, como sempre, foram os moradores que resolveram seus problemas, e assim foram feitos mutirões de ajuda junto à sociedade civil e empresas em busca de amenizar o que antes já era sofrimento e que, agora, só se ampliou. Mas o mínimo vem sendo feito. Como diz o ditado da favela “pega a visão, é nós por nós mesmo”, porque os governos só aparecem nas eleições e manda polícia as vezes em calamidades.

Com a obrigatoriedade do uso de máscaras e de álcool em gel que muitas pessoas passaram a usar. Isto também pelas campanhas de doações e conscientizações feita pelos próprios moradores. Já em meados de maio, as pessoas foram saindo em busca de trabalho. Muitos eram desempregados. Apesar de conseguirem fazer o isolamento social, alguns motivos como casa pequena, muitas pessoas e pouca comida e água para se higienizar, aliada a flexibilização da prefeitura, as pessoas começaram a deixar de usar as máscaras. Um fato interessante foi que a associação de moradores, junto com a companhia de abastecimento de água, instalou pias com água e sabão em vários pontos da Rocinha. Não podemos esquecer que os números de infectados e mortos são altos. As pessoas lamentavam mais ainda de que o prefeito, que sempre foi um religioso, permitiu a colocação de um tomógrafo no pátio de um templo religioso de sua crença, como se não tivessem na Rocinha três unidades de saúde com profissionais e espaço para tal aparelho.

Recebemos estudantes internacionais desde 2017. Mesmo com o isolamento social, mantivemos nossas atividades de apoio junto a coletivos e Ongs parceiras do Sankofa. Aquelas organizações que queriam doar para museu tiveram suas doações repassadas para as parcerias, pois não temos espaço físico e 70 % dos nossos membros são de alto risco. Antes da pandemia, recebíamos estudantes de arquitetura e pesquisadores. Mas devo dizer que, agora, com a pandemia, todas as atividades dos tours estão paradas. Pessoas que dependem do trabalho, como guias, e que não tinham dinheiro guardado estão em uma situação delicada, pois não têm recursos suficientes para pagar as contas ou comprar comida. Assim, nós do Sankofa e um grupo de guias tivemos a ideia de um crowdfunding para arrecadar dinheiro para esses guias locais. Há outras iniciativas com outros grupos, como a distribuição de cestas básicas.

Se você quiser saber mais ou visitar o nosso museu, entre em contato conosco no seguinte endereço: